segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Ninfetas














Vasculhai essa escuridão com vosso teclado
tudo que há de encontrar é a própria solidão
adentrai a noite longa e o vazio da encarnação

Cedo seus dedos se enchem de nós
breve vossos pensamentos nublam
e só contraste será vossa vida

Cuida que a alegria apagou em madrugada fria
a motosserra do tempo vem estuprando os dias
e nem em sonho vós comeis essas ninfetas.

RSVP

Violência gera violência.
Indiferença gera mais violência ainda.

Frango na salmoura.

A última trovoada apagou tudo ao redor. Ouvi barulho de transformador explodindo. Aquilo era a trilha sonora das carícias mais íntimas que iam se desenvolvendo há algumas horas. A tempestade era em todo lugar da cidade. Em algum canto, alguém bebia muito, teclava a esmo os oito dígitos da amada, dirigia sem rumo. Conseguiu reunir forças para deixar um recado na secretária. Abriu as torneiras da dor de ser preterido e foi esse dilúvio que apareceu na caixa de mensagens dela. Era tão alto e tão sofrido, que mesmo ela tendo ido para a sala, do quarto dava para ouvir tudo.
Não sei há quanto tempo eles estavam juntos. Ouvi ela resmungando que ele devia estar dirigindo sem óculos, mas que não queria nem saber. Antes de voltar ao ofício interrompido, resmungou:
- É um frango mesmo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Balada da pessoa amada

Pessoa amada,

estou aqui pensando em quantos anos desde a primeira vez que a vi.

Não me lembro direito do dia em nasci, não me recordo do meu primeiro dia de aula nem de quem estava comigo no dia da minha formatura. Parece estranho que eu não me lembre das datas mais importantes da minha vida, mas de uma coisa eu nunca vou me esquecer: o dia em que te vi pela primeira vez. Foi o mesmo dia em que você pousou seus olhos enormes sobre mim. 

Foram muitos anos, alguns sem e outros com você, mas todos foram maravilhosos porque em nenhum deles, por nenhum dia sequer, eu deixei de pensar em você.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Nossa Senhora da Aparecida Salve a Rainha

As faixas que vi num livro, penduradas pelas ruas de Londres.
Quero dizer que voltei a ler pensamentos. Quero dizer que estou atento.
Salve a Rainha.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Antropologia interna.

A madrugada é assim um tipo de vício que a gente vai incorporando, vai ficando acordado todo dia mais uma hora e no outro dia outra hora até que não há mais madrugada, mas a manhã ruidosa.


Esse silêncio é tudo que eu preciso pra me sentir um fantasma. Aprendi a brincar de fantasma na escola. Na escola eu fingia que era um fantasma e ninguém me achava. Fiquei craque em passar desapercebido. Fui me refugiando na madrugada da minha vida, deixando que os vivos façam sua enfadonha chamada para a vida. Só vou levantar o dedo e jamais dizer presente. 

Ando pela casa até achar um canto e me deitar. Um sófa perto da gaveta de fotos serve bem ao meu propósito. Meninos soprando velinhas, penteados engraçados, xadrez e listras vestindo a mesma pessoa, gente muito magra em calças boca de sino, sempre rindo, um menino, um mapa do Brasil ao fundo, ao lado de um globo e o nome da escola numa plaquinha. Acho que todo fantasma que eu conheço tem uma foto assim pra chorar sobre ela numa madruga chuvosa.

sábado, 6 de novembro de 2010

Sarapatel de Moça

Não sei comer sem pimenta, farinha e um verde por cima.
Ouvi dizer que moça tem gosto de peixe. Mentira. Moça tem carne vermelha e tenra mesmo que more na praia.
Nem sempre se pode ter essas carnes mais nobres, de modo que às vezes se pode lançar mão daquilo que resta de uma bela moça após toda a dessossa sem desdouro algum nem para o prato nem para os convidados. Vamos nos contentar e nos refastelar com as vísceras, verdadeira delicadezas para o paladar de alguns.
Todo o trabalho está em picar rins, estômago, peitinhos, fígado, tripas, bofes e toucinhos em tiras de um dedo ou menos conforme a pressa do leitor.
Quanto mais nova a moça, mais íntregos e preservados seus miudos, sem o deterioro comum da alimentação e da bebida. Hoje, tanto as moças do campo quanto as dos grandes centros estão expostas aos mesmos tipos de venenos e vida desregrada, portanto não se deve fazer a ofensa de recusar quaisquer das duas.
Em panela alta refoge tudo na própria gordura, tomates, cebola, alho e louro. A tendência é que não se tempere demais para não esconder o sabor da moça.
Meia hora basta para que tudo cozinhe e forme perfumado caldo que deve ser colhido e escaldado sobre boa farinha de mandioca para consumar um verdadeiro pirão de moça.
Serve cinco pessoas com folga fazendo festa ao gosto geral mesmo àqueles que não pareciam peixe.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Indeferença é a uma imensa concentração de nada em prol de coisa alguma.

Reparou que eu fiz a barba?
Percebeu que o perfume é novo? Gostou?
Já te contei que estou lendo Rosa de novo?
Voltei a malhar.
Legal esse blusão?
Arrumei um aparelho de tira os pelos do nariz num minuto!
Hoje estreia aquele filme que comentei...
Ontem passou aquele show que você falou.
Sonho de valsa ou Ouro Branco?
Essa gravata fica bem com essa camisa?
Faço meditação agora.
Sabia que vão demolir aquele prédio que você gosta?

sábado, 2 de outubro de 2010

Sonhos feitos de areia.

Em algum lugar no futuro, após a milésima duna, em meio a coqueirais, vou  viver ao lado da mulher amada numa cabana distante do mundo, pelo resto da vida.
Nesse sonho tem um corpo desenhado, todo escrito, deixado entre as ondas dizendo: venha!
Tem um abraço e um beijo salgado, possibilidades, sossego.
Quero ler e escrever para ela, quero que ela leia para mim coisas dela, para que possamos escrever juntos um mesmo sonho.
Olha lá os séculos passando, amor.