terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Se fez de penico.

Se tiveres apenas uma só bala no revólver e tiveres que escolher entre tua mulher o o amante dela, em quem atiras?
- É o Afonso?
- Hum?
- Perguntei se o amante é o Afonso?
- Que Afonso? Perguntei hipotético. Falando sério, pensei alto apenas.
- Falou é porque tem coisa. É o Afonso. Eu sei. Uma hora eu ia chegar em casa e pegar aqueles dois na minha cama.
- Deixa disso. Nem sabia que você era casado. Aconteceu de um compadre meu estar nessa situação e guardou a raiva. Sem querer se esquecer de ninguém, esperou o outro encontro dos pombinhos debaixo da cama, se fez de penico. Varou os dois na mesma bala. 

De modo que

O arquiteto centenário fez dois rabiscos trêmulos num papel e eu aumentei o volume da TV. Peguei-o ainda termindo a sua frase mais conhecida:
- ....de modo que as pessoas pudessem ficar aqui sob as colunas. Eu adoro curvas....as curvas das mulheres do meu país, das montanhas.....

A expressão é de sabedoria, a intenção é de poeta e a voz é de um monge.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Eu, ela e três metros de seda verde

Dai-me a seda e eu a amarrei de modo que não possa nem mexer os cílios e ai seremos felizes para sempre.


"Porque seda? Porque não chita? Porque não estopa ou  mesmo a boa e velha corda?" me perguntam.

"Por que ela merece o melhor, ora."

O verde lhe cai bem e combina com seus olhos.

Um dia, a guisa de carinho, vou lhe perguntar:

"quer que eu te solte?"

"Precisa não, amor."

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Faroeste Moderno.

Normalmente, quando eu coloco o nariz pra fora deste portão azul, minha espectativa de vida diminui em dez porcento. Essa madrugada, quando paguei o taxi e a coloquei pra dentro de casa, assinei minha sentenca de morte. O cara dela vai me perseguir e eu sei que não será um duelo. Na tocaia, vai querer tirar vingança por eu lhe ter roubado aquilo que nunca foi dele. 

Ensaiei mentalmente milhares de vezes a frase que diria quando ela me ligasse dando um basta na situação:
- Pegue um taxi e venha pra cá agora.


Assumo que sou cavalheiro e só penso no seu bem. Só trouxe consigo uma boina bonina e o hálito de Red Label. Cicatrizes que procurei, roxos que encontrei, olheiras e cabelos tingidos. Fiz um toddy e lhe contei uma história sobre as primeiras embalagens que vinham com bula. Ela não me contou nenhuma novidade. Só tinha um discurso todo desconexo. Notei que mexe os ombros freneticamente enquanto fala o que lhe dá um charme particular de novela de época.

Antes de fazer sua cama, dei-lhe um beijo que ela não esperava que fosse naqueles termos paternais. Fiquei na varanda esperando o sol e os passarinhos, rodando o tambor do Taurus 32 que foi do meu avô.

A impressão é de que ela vai ser minha um dia mais do que qualquer pessoa pode ser de outra.

A Família recebeu as cinzas de Rosana consternada. Um parente balancou a urna e percebeu algo solto dentro. Abriu e era um pedra assim do tamanho de um punho. O funcionário do crematório foi logo explicando:

- É o coração. Não deu pra queimar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Destatuagem

O método da dastatuagem é simples e indolor. É extremamente barato e, em pouco minutos, a pessoa sai do tratamento sem nenhum sinal ou cicatriz.
Trata-se de um procedimento com radiação em uma única aplicação sem riscos, sem efeitos colaterais e sem retoques. As pessoas que já se submeteram a esse novo e revolucionário método estão plenamente satisfeitas.
A.B.C é vibrotecária e tem 23 anos:
- Depois que eu experimentei a destatuagem, minha vida mudou completamente. Eu tinha um dragão, uma tribal no rabo, um golfinho, uma receita de bolo e o telefone de um carinha aí com que eu saía. Agora estou lisinha novamente. Obrigada destatuagem.
W.X.Z é esguichista e tem 24:
- Adoguei! Destatuagem me tigou um peso das costas. Agoga é só coguer pgo abgaço.
Destatuagem é um método perfeito para remover aquelas tatuagens mais vergonhosas e inoportunas, representantes de uma época que você quer mais é esquecer como o fato de ainda morar com seus pais.
Destatuagem é perfeita não fosse por um detalhe: ainda não foi inventada.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Óbvio de Oliveira e sua mania de enxergar as coisas quando ninguém mais vê.

De um modo generalizado, pais não podem acompanhar seus filhos internados em hospitais. A regra vem da época em que as eram freiras que davam as ordens no terreiro hospitalar. Conhecidas pela crueldade, preconceito e discriminação com que tratam as pessoas, alunos e funcionários, as irmãs achavam que todo homem é um estuprador nato e basta o mero contato deles com a luz da lua que se tornam monstros sedentos de carne feminina seja ela de que idade for.
Essa lenda persiste até hoje juntamente com a da loira do banheiro ou como o velho do saco.
Crianças precisam contar apenas com as mães se estiverem internadas em enfermarias.
Um viuvo sem parentes fêmeas vai amargar a dor de ter que deixar sua prole desacompanhada. Será que ninguém enxerga a injustiça e o preconceito dessa regra? A instituição tem que dar condição para que ambos os pais possam prestar assistencia aos filhos.
Se o homem é, de fato, um animal incontrolável em sua tara, então que o hospital providencie jaulas ou instações adequadas para conter a fera.
Nenhuma pessoa com quem conversei sobre esse assunto se furtou a contar que sabe de um caso desse ou daquele pai que estuprou a filha ou olhou para a bunda de outra acompanhante.
Vamos que o pai, se lhe faltar algum parafuso da sua macheza tão reconhecida por deixar a filharada ao deus dará, resolva revesar as noites de vigilia com a mãe, acaso esse não seria um direito dele? E o estado não deveria garantir esse direito? É raro encontrar um homem que se preste ao papel, eu sei, como todo mundo se acostumou a digulgar por ai,os homens são todos canalhas, só as mulheres são santas. Não existe mulher mal caráter, por isso lhes é franqueada a presença noturna em enfermarias. Não é isso?
Ora, é obvio que vivemos aqui um equívoco. Esse regulamento persiste desde a mesma época em que se separam meninos e meninas nas escolas sob o mesmo argumento: dá confusão misturar homens e mulheres. Para apoiar tal afirmação estão aí milhares de escolas transformando o mundo num imenso caos.


domingo, 31 de janeiro de 2010

Gosto não se discute.

Parece que a chuva acabou. O sol simula raios nas frestas do curral. Ligo a picadeira de modo que as vacas ouçam o sinal para se chegarem ao coxo. Fubá, capim, ração farelada com cheiro delicioso, sal mineral, cilagem e mais umas vitaminas.
As vaquinhas comem com sofreguidão. Fungam tentado separar os talos mais duros. A hora de tirar o leite já passou. No rádio, uma balada romântica.

Encosto num esteio próximo para tirar um blues na viola. Mi, láá, Sol, Mi. Acrescento uma frase e arremato com aquele clichê em quartas descendentes.

A bela jersey se volta para minha pessoa e muje.

- Willie Dixon? pergunta.

- Humberto Teixeira.

Frugalidade de ocasião.

Comida boa deve ter no máximo três ingredientes. Mais do que isso é mistura. Comida boa é comida simples. Sabor forte também não me anima mais. Vou divulgar uma salada porque o calor está de matar.


Tenho adoração pelo tal do palmito. Macio, branco e com gosto de nada. Sem falar que não é calórico.

Surgiu no mercado um tomate doce e comprido, maior que o cereja e de vermelho intenso. Conseguiram tirar a acidez excessiva a ponto de se tornar palatável. Achando, não deixem de provar o tomate seriguela.

Então. Cheiro verde picadíssimo, sal, limão, azeitinho, mistura tudo e só.

Na hora do almoço, nada melhor. Vai da geladeira para a marmita que não é vergonha nenhuma evitar restaurantes parques de salmonelas.