segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Hip-Hip Urra!

Quando o olhar diz tudo eu gelo só de levantar a vista.
Eu já tinha aberto os exames e dado um jeito de colar de novo para que doc não percebesse.
Me finjo de égua para médicos desde que era bem criança.
- Quer dizer que não vai doer essa injeção no meu olho? Fico mais tranquilo assim depois que o senhor disse.
Aquela agulhada ia me quebrar por inteiro, das juntas à alma. Todo comportmento errado, todas as noitadas, os sapos que engoli, as viajens que fui, as que deixei de ir, as coisas que comi escondido e as dietas que anunciei, os carimbos no meu passaporte, a fumaça das cartas que queimei, as lambidas nos selos, tudo parecia resultada nesse instante em que ele ia proferir a sentença.
Aos vinte anos, a gente já sabe do que vai morrer.A gente simplesmente não dá ouvidos.
"Fala!"
- Aqui tá tudo Ok.
"Mentira!"
- Você tem tomado o remédio que eu te passei?
"Joguei tudo fora"
- Então é isso. Agora é so controlar.

Um dia eu sei que ele vai dizer a verdade. A verdade é que eu vou morrer e ele fica adiando o pronunciamento como se isso adiantasse alguma coisa. Não adiantou nada convidar esse doutorzinho para meu aniversário de noventa anos. Ele não é meu amigo.

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