quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O rei dos mares daqui

Meu sonhos deixam, a partir de hoje, de ser terrenos e mesquinhos. Passo a sonhar agora com coisas marítimas e caras.


A nova paixão tem cem pés de comprimento e acomodações para 10 pessoas incluindo a tripulação. Estou aqui encantado com os detalhes e o requinte de acabamento do Azymut 100s, um iate lindo capaz de chegar a 40 nós sem perder a compostura, sem amarrotar uma só fronha de seda, sem deixar esfriar a lagosta nem esquentar o champagne.

Botei pra mim que essa coisa será minha, mesmo tendo recebido grosseiríssimo e-mail do representante da empresa no Brasil dizendo da inviabilidade logística de trazer a embarcação até a lagoa da Pampulha.

Já tenho até nome e musa inauguratriz para o batismo da luxuria flutuante. Jasão, que era um barquinho com o qual eu e meu pai cruzávamos as águas do Tocantins em busca de civilização quando eu era criança.

Mesmo sabendo que será a dispendiosa tripulação quem de fato vai usufruir das instalações durante a minha ausência, mesmo tendo certeza que patrocinarei orgias de marujos, mesmo assim quero a belezura. Inclusive, e talvez por isso mesmo, sabendo dos quase cinco milhões de Euros que devo pagar, a quero mais que qualquer outra coisa que já quis nessa minha inteira vida de querer.

Como nunca fui homem de deixar as coisas para o dia seguinte, tirei um extrato e conferi chateado não dispor ainda da totalidade do valor. Liguei para a ex-esposa, que tem travesseiro e colchão mais gordo que o meu. Recebi dela a comovente promessa de contribuir com dez mil reais para me ver feliz. Confesso que chorei nessa parte. Prossegui a perseguir o montante nas burras agora da própria família do escritor. Comecei pelo pai que assumiu não ter tudo mas que se tivesse não me emprestaria sequer dinheiro para um remo. Em meio aos berros dele, pedi para falar com a autora dos meus dias, que se mostrou compreensiva e prometeu envenenar meu pai assim que fosse possível, trazendo assim o vislumbre de contribuição com parte da herança magra.

Refiz as contas e ainda estava meio distante da compra.

Amanhã mesmo vou fundar um instituto cultural, uma ONG, uma fundação que me dê fundos de modo que eu possa realizar meu sonho.

Logo que puder navegar com estilo, parto em busca da próxima conquista. Tenha aqui um desejo oculto de ter uma sereia e é com o Jasão que irei buscá-la.

2 comentários:

  1. Pode-se ser sereia de um marujo sem embarcação? Com ou sem barco é sempre legal poder ser sereia. Tenho uma certa agonia com minhas escamas que andam caindo pelos cantos devido ao protetor solar composto de alguma substância que me faz mal. Mas estou substituindo o produto logo mais - assim que este que comprei acabe, afinal mesmo fazendo mal eu paguei caro, ( e todo bloqueador está pela hora da morte. dificil ser ser sereia de praias rasas e clima quente). Espero sua resposta para que eu possa me preparar devidamente para nosso encontro. Repito: com ou sem barco.

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  2. Já não preciso de bússula porque é o seu canto que me guia agora. Dou a vida em braçadas para chegar a essas escamas o mais breve que eu puder. Encantado.

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