domingo, 21 de março de 2010

A essência ferida do ogro.

Querem que tudo seja belo e perfeito. Tudo tem que ser cada dia melhor e mais lindo. A verdade é que não é bem assim, não tem como evitar ser arranhado e pisado pela vida.
Vejo a maturidade chegando assustado, admirado por ter vivido tanto, triste por ter tanta gente nova no mundo. Vai ficando difícil conversar, nunca se sabe se vão entender a piada, é preciso parar e explicar toda hora. A gente vai desistindo de fazer pilhéria, vai se voltando pra si e quando encontra um vejo amigo é motivo de cerveja e foguetório.
Um corcunda reconhece o outro de longe e os dois se arrastam para a catedral do álcool, repleta de sacerdotes de bandeja e gravata borboleta.
- Vai chegar uma hora em que ninguém vai entender nada do que eu falo, nem eu o que eles dizem.
- Está na hora de voltar para o sarcófago, pede a conta.
- Também vou indo. Se perder esse ônibus pro meu pântano vou ficar assombrando no centro até amanhã de manhã.
- Ainda não inventaram a aposentadoria por feiura.
- Verdade. Nem por "fora de moda". Vão me deixando ali como exemplo do que acontece com alguém que vive muito.
Um grupo passa falando aos berros indiferente aos tímpanos alheios.
- Meu consolo, companheiro, é que, se chegarem a nossa idade, vão estar todos surdos.
A conta chega e não reconheço a moeda, pergunto se reais ainda valem e o garçon informa que o prazo para troca do dinheiro venceu há anos. Assegura que posso pagar com celular-card, que eu não tenho.

3 comentários:

  1. O ogro é o tipo ideal: assim como urso amestrado também sente as chicotadas no lombo que só o tempo e as mulheres ardilosas são capazes de oferecer.

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  2. Devo ser mesmo muito covarde para não estar sob os estalados desse chicote...

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