Um lobo, se quiser se alimentar, não pode nunca se despir da pele de cordeiro. Deve viver sempre entre o rebanho a ponto de chegar a pensar que a ele pertence.
De tanto ir ficando entre as ovelhas, foi se acostumando ao convívio delas e elas ao dele. As ausências jamais foram atribuídas a ele. Um certo dia acabou tosquiado. Vendo-o assim, como era de fato, houve um reboliço geral.
- Um Looooobo!
- Calma pessoal! Estive tanto tempo entre vocês e nunca notaram a diferença. Porque o espanto agora? - Tentou consertar a situação.
Foi aceito no rebanho desde o primeiro dia. Como simplesmente substituiu aquela que ceifou, o tomaram como a própria a despeito de suas presas enormes e seu hálito de sangue.
-É você quem nos devooooora! – Acusaram.
- Acaso sou eu pior que o dono da fazenda? Ele também não as colhe quando bem entende, além de lhes deixar no frio quando tiram a lã? Eu não preciso de lã.
As ovelhas começaram a se entreolhar.
- Mas o dono da fazenda nos alimeeeeenta....- retrucou um borrego mais afoito.
- Ouçam-me. Olhem a grama que brota sob vós. Quem disse que o dono da fazenda também é dono dela? Ela cresce em todo e qualquer lugar. Porque viver desta grama se há tantas outras em tantos lugares? Porque permitir que um humano mate suas crias se ele pode muito bem comer qualquer coisa? Eu, ao contrário, fui condenado pelo criador e meu estomago só aceita a vossa carne. Digam-me: quantas de vocês poderia eu abater sozinho? Pensem! Quantas o fazendeiro abate? Calculem que é muito mais. Não é do vosso sangue que as festas dele se fartam? E quantas festas esses humanos não fazem, não é mesmo amigas? Digam se já me viram, em todos esses anos que estou entre vós, comemorar sequer um aniversário!
- Nãããão!
- Quando é o seu aniversááááário, Sr. Lobo? – Interessou-se uma matriarca de suculenta prole.
- Em breve minha senhora. Mas isso não importa. Ouçam o que eu tenho a lhes propor. – A essa altura, até os cães prestavam atenção. – Há muitos pastos pelo mundo. Permitam que eu as conduza por eles em segurança. Deixem que eu seja o seu pastor. Em troca peço apenas uma ou outra de vós de vez em quando e em menor proporção que cobram os humanos. Eu as defenderei dos perigos e as conduzirei aos pastos mais doces. Condordam?
- Lóóóógico! – Responderam em uníssono.
- Os cães que quiserem me ajudar nessa tarefa serão recompensados. Há um buraco na cerca que foi por onde eu entrei. Vamos amigas! Antes que a noite caia!
O fazendeiro viu de longe aquela cena, esfregou os olhos e continuou vendo o absurdo do mesmo jeito. Todo o seu rebanho sendo conduzido no rumo da colina pelo lobo que dava pulos de alegria. Na contenção, seus cães fiéis exercendo a mesma função agora para outro patrão.
Correu em direção a cerca e gritou tentando evitar o pior:
- Voltem suas malucas!
Já estava meio escuro e percebeu que restava um último cão que observava tudo solene.
- E você? Porque não foi com eles?
- Eu sou ateu.
Instauratio magna
8 minutos atrás

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