terça-feira, 4 de maio de 2010

Ovo da morte.


    A minha mãe é aquela do globo da morte. Toda vez que ela entra pra fazer o número eu entro em aflição.
Esse é o terceiro marido dela. É o novo parceiro dela no número. Os outros dois já morreram fazendo a mesma coisa. Um deles era meu pai, o outro pai do meu irmão.
Ela é corajosa. Afunda as botas no pedal de partida e avança envolta pela fumaça do motor dois tempos. O meu coração gela quando o assistente tranca os dois lá dentro do globo.
A música alta deve ser pra disfarcar meu choro quando eu era criança. Sempre acho que ela vai se arrebentar toda. Dizem que ela usa uma medalha protetora, coisa que eu nunca vi.
Dá vontade de ir embora, mas eu fico agarrado ao picadeiro, quase botando um ovo.
Ei mãe! Linda. Ela é linda. Calça de lurex coladinha, cheia de tarachas de aço. Rabo de  cavalo saindo pelo capacete.
Olha. Presta atenção! Nunca sei se ela está rindo ou preocupada. Ela dança com o pareiro um balé mortal. Um tem que confiar no outro.
Tem uma hora em que os dois ficam quase de cabeça para baixo numa velocidade mínima.
Nessa hora nada pode dar errado. É o ápice do espetáculo.
Cuidado Mãe!
Se o motor falhar....Adeus.
Tudo é feito sempre em segunda marcha e o giro tem que ser alto também. O segredo está na regulagem.
Desde que aceitei ser seu mecânico fico mais tranquilo.
Nada pode dar errado, não é mesmo ,  mãezinha linda?

2 comentários:

  1. E tem gente que é assim mesmo...e mães costumam ser mesmo adoráveis, e muitas no globo da morte...pois ser mãe não é mesmo entrar no globo da morte...se si e do outro...pelo outro...
    Beijo

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  2. acho que vou fazer um curso de mecânica para me sentir mais tranquuila quanto a imortalidade da mamae também....e é provavel que minha filha, ao me ver matricular-me, se matriculará também.
    Amei o texto.

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