Daqui até a estréia são vinte minutos. Vão ser duas campainhas. Doze batidas na porta do camarim. Daqui até a estréia são cinquenta passos curtos e um corredor escuro; são duas doses de tequila e uma cigarrilha; são dois degraus até o palco. Até lá serão centenas de palmas e sem as lentes não verei meus pais na platéia. Ficarei procurando por eles nas primeiras filas em poltronas separadas. Vidas separadas.
Pela mão dela, fui a primeira aula de balé. Com ele, vi meu primeiro filme.
Daqui até a minha primeira fala, serei vista e examinada, dissecada pelas velhas múmias e pelas novas víboras. A primeira palavra não tem o menor sentido. Nada disso faz muito sentido. As flores e os cartões enfeitam a falta de sentido e a farsa do texto.
Meu espelho! Meu espelho! Vá lá e fale por mim já que sabe tanto a meu respeito. Clone de vidro.
Você não sabe o que é uma estréia. Daqui até lá, atrevassarei camadas de mim mesma que você nem sonha que existem.
Vou não. Pra passar vexame eu não vou! Se ninguém aparecer, melhor. Se comparecerem em massa, pior, porque será mais gente assistindo meu fracasso.
Por trás do belo texto a tristeza do fardo que se apresenta no palco - ou mesmo no picadeiro!
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