Lá na casa onde eu moro tem flor, tem mangueira no quintal, tem jaboticaba, tem balanço, carramanchão. Um pé de boldo, retratos na parede, tem gavetas. Tem pombos no beiral, lindos ninhos de garrincha, azaléias. Janelas em arco, namoradeiras, canapés, varandas. Tem máquina de lavar, freezer e DVD. Lá na casa onde eu moro tem vizinhas sorridentes. Crianças pedindo para pegar a bola que caiu no jardim. Tem vizinho carrólatra que gasta água sem parar. Lá na rua da minha casa tem moça na janela falando ao celular. Tem lua, tem vênus, tem vista para o relógio do JK. Lá em casa tem pilhas de livros por todo lugar, pratos aguardando bucha, roupas bailando no varal. Raspas de madeira passeando pelo pátio. Tem garagem torta e traiçoeira. Tem um poste centenário de quando o lote era rua. Tem esteio onde se marcar os centímetros das crianças sempre altas.
Lá em casa tem telhado duas águas, diplomas em latim nas paredes, canecas de viajens antigas, fotos do Egito.
Parado no tempo meu sobrado resiste sem reforma. Seus cantos ecoam risos dos filhos que aqui criamos, dos netos que teremos, pios de gerações de bem-ti-vis, churrascos crepitando.
Minha cara casa, minha cara. Vou te trocar por um apartamento no centro onde só caiba eu e um sofá. Tanta lembrança eu não aguento.
Venha morar na praia comigo, S.
ResponderExcluirLá cabemos nós dois, o sofá e uma estante para livros(conhecimento) e porta-retratos(lembranças).