segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Antropologia interna.

A madrugada é assim um tipo de vício que a gente vai incorporando, vai ficando acordado todo dia mais uma hora e no outro dia outra hora até que não há mais madrugada, mas a manhã ruidosa.


Esse silêncio é tudo que eu preciso pra me sentir um fantasma. Aprendi a brincar de fantasma na escola. Na escola eu fingia que era um fantasma e ninguém me achava. Fiquei craque em passar desapercebido. Fui me refugiando na madrugada da minha vida, deixando que os vivos façam sua enfadonha chamada para a vida. Só vou levantar o dedo e jamais dizer presente. 

Ando pela casa até achar um canto e me deitar. Um sófa perto da gaveta de fotos serve bem ao meu propósito. Meninos soprando velinhas, penteados engraçados, xadrez e listras vestindo a mesma pessoa, gente muito magra em calças boca de sino, sempre rindo, um menino, um mapa do Brasil ao fundo, ao lado de um globo e o nome da escola numa plaquinha. Acho que todo fantasma que eu conheço tem uma foto assim pra chorar sobre ela numa madruga chuvosa.